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sábado, 7 de maio de 2022

Historiografia Africana

 

Historiografia Africana

Conceito

A historiografia africana é a história da história de África; a maneira como a história africana é escrita e interpretada ao longo dos tempos. Ela visa analisar e avaliar as várias fases pelas quais passou a investigação, o ensino e as formas de abordagem da história de África.

Os primeiros trabalhos sobre a história da África são tão antigos quanto o início da história escrita. Os historiadores do velho mundo mediterrânico e os da civilização islâmica medieval tomaram como quadro de referência o conjunto do mundo conhecido, que compreendia uma considerável porção da África.

Contexto histórico

É o ser social do Homem que determina a consciência e não o inverso. É a partir dessa premissa que Marx constrói o sistema do materialismo histórico. O materialismo histórico afirma que os processos económicos estão na base de toda a evolução da Humanidade. Houve uma evolução nos modos de produção, desde as comunidades primitivas até à sociedade socialista. A passagem de um modo de produção para o outro deve-se à existência de um elemento dinâmico, a luta de classes.

Evolução da Historiografia Africana

Antiguidade

Entre as civilizações da Antiguidade Oriental, desenvolveu-se em África a civilização egípcia. Os egípcios desenvolveram nessa época a escrita hieroglífica, que serviu para fixar o legado religioso que até então era transmitido oralmente (cosmogonias e mitografias).  

A África ao norte do Sahara era parte integrante de duas civilizações e seu passado constituía um dos centros de interesse dos historiadores, do mesmo modo que o passado da Europa meridional ou o do Oriente Próximo.

As informações clássicas a respeito do mar Vermelho e do oceano Índico têm um fundamento mais sólido, pois é certo que os mercadores mediterrânicos, ou ao menos os alexandrinos, comerciavam nessas costas.

 

A Idade Média

Neste período, os escritores e viajantes escreveram pouco sobre África. Somente há registos sobre o norte de África que teve contacto com comerciantes fenícios, gregos e romanos.

Os autores árabes eram mais bem informados, uma vez que em sua época a utilização do camelo pelos povos do Sahara havia facilitado o estabelecimento de um comércio regular com a África ocidental e a instalação de negociantes norte-africanos nas principais cidades do Sudão ocidental.

Noutras regiões do continente também se fizeram registos escritos sobre os africanos, feitos por escritores árabes, como: Al-Masudi; Al-Bakri; Al-Idrisi; Al-Umari; Ibn-Batuta e Hassan Ibn Muhamad Al-Hassan (Leão de África) estes são de grande importância para a reconstrução da história da África, em particular a do Sudão ocidental e central, durante o período compreendido entre os séculos IX e XV.

Por outro lado, o comércio com a parte ocidental do oceano Índico tinha se desenvolvido a tal ponto que um número considerável de mercadores da Arábia e do Oriente Próximo se instalaram ao longo da costa oriental da África.

Por mais úteis que sejam essas obras para os historiadores modernos, pairam dúvidas de que possamos incluir algum desses autores ou de seus predecessores clássicos entre os principais historiadores da África. O essencial da contribuição de cada um deles consiste numa descrição das regiões da África a partir das informações que puderam recolher na época em que a evolução da historiografia da África escreveu.

Não existe nenhum estudo sistemático sobre as mudanças ocorridas ao longo do tempo e que constituem o verdadeiro objectivo do historiador. Aliás, tal descrição nem chega a ser realmente sincrónica, pois se é verdade que uma parte das informações pode ser contemporânea, outras delas, embora pudessem ainda ser consideradas verdadeiras na época em que o autor vivia, muitas vezes poderiam ser provenientes de relatos mais antigos. Além disso, essas obras apresentam o inconveniente de que, em geral, não há nenhum meio de avaliar a autoridade da informação, de saber, por exemplo, se o autor a obteve por sua observação pessoal ou a partir da observação directa de um contemporâneo, ou se ele simplesmente relata rumores correntes na época ou a opinião de autores antigos.

Do século XV até à actualidade

A partir do século XV, o continente africano, teve contactos com todo o mundo, especialmente com os europeus, no contexto da Expansão europeia e com o envio no séc. XIX, de expedições missionárias, cientificas e militares que escreveram sobre África em quase todas áreas científicas, com especial destaque para a Geografia e exploração de recursos naturais. Os missionários, ao contrário, sentiam -se obrigados a tentar alterar o que encontravam e, nessas condições, um certo grau de conhecimento da história da África poderia ser -lhes útil.

A costa da Guiné foi a primeira região da África tropical descoberta pelos europeus; ela foi o tema de toda uma série de obras a partir de 1460, aproximadamente (Cadamosto), até o início do século XVIII (Barbot e Bosman). Uma boa parte desse material é de grande valor histórico, porque fornece testemunhos directos e datados, graças aos quais podem -se situar várias outras relações de carácter histórico.

Há também nessas obras abundante material histórico (entendido como não -contemporâneo), sobretudo em Dapper (1688), que, ao contrário da maioria dos demais autores, não era um observador directo, mas apenas um compilador de relatos alheios. Porém, o objectivo essencial de todos esses autores era mais descrever a situação contemporânea do que fazer história.

A partir do século XVIII, parece que a África tropical recebeu dos historiadores europeus a atenção que merecia. Era possível, por exemplo, utilizar como fontes históricas os autores mais antigos, sobretudo os descritivos – como Leão, o Africano, e Dapper, de maneira que as histórias e geografias universais da época, como The Universal History, publicada na Inglaterra entre 1736 e 1765, podiam consagrar um número apreciável de páginas à África.

Devido aos problemas coloniais, a África não foi considerada um espaço único e total, dai que até hoje é frequente dizer-se «África branca» -África do Norte ou Magreb, e «África Negra» - Sul do Sahara. Esta situação justifica o facto de aparecer uma história regionalizada:

  • História de África Magrebina; História de África Ocidental; Central e Oriental e África Meridional.

O crescimento do interesse dos europeus pela África havia proporcionado aos africanos grande variedade de culturas escritas, que lhes permitia exprimir seu interesse por sua própria história. Foi esse o caso principalmente da África ocidental, onde o contacto com os europeus havia sido mais longo e mais constante, e onde sobretudo nas regiões que se tornaram colónias britânicas – uma demanda pela instrução europeia já existia desde o início do século XIX.

Em 1948, aparecia a obra History of the Gold Coast de W. E. F. Ward. No mesmo ano, a Universidade de Londres criava o cargo de lecturer em História da África na School of Oriental and African Studies, confiado ao Dr. Roland Oliver.

É a partir dessa mesma data que a Grã -Bretanha empreende um programa de desenvolvimento das universidades nos territórios que dela dependiam: fundação de estabelecimentos universitários na Costa do Ouro e na Nigéria; elevação do Gordon College de Cartum e do Makerere College de Kampala à categoria de universidades. Nas colônias francesas e belgas, desenrolava -se um processo semelhante. Em 1950 era criada a Escola Superior de Letras de Dacar que, sete anos mais tarde, adquiriria o estatuto de universidade francesa.

Principais Etapas

Na 1ª etapa, o Homem capta a realidade que circunda através dos órgãos sensoriais: visão, olfacto, audição, gosto e tacto. O seu cérebro reproduz a realidade concreta que o circunda e retém-na através da memória. A realidade concreta, uma vez apreendida pelo cérebro, passa a fazer parte do conhecimento concreto ou sensível.

Na 2ª Etapa, o cérebro trabalha os conhecimentos já adquiridos, analisa-os, relaciona-os. Selecciona-os, sistematiza-os e transforma-os em informações, isto é, em noções gerais de carácter abstracto com os quais o nosso pensamento opera para compreender a realidade – conhecimento abstracto.

Na 3ª etapa, percepciona-se e representa-se o conhecimento. A percepção é a forma superior do conhecimento sensorial. Reflecte o objecto na integridade sensorial imediata, no conjunto dos seus aspectos e particularidades externas. A representação é a reprodução de acontecimentos, agradáveis ou desagradáveis.   

Principais Correntes

Corrente Eurocentrista

É uma corrente marcadamente racista, pois defende a superioridade da raça branca sobre a negra. Sustenta que os africanos não tinham história antes de estabelecerem contactos com os europeus. Afirma que África não é uma parte histórica do mundo.

Hegel (1770 -1831) definiu explicitamente essa posição em sua Filosofia da História, que contém afirmações como as que seguem: “A África não é um continente histórico; ela não demonstra nem mudança nem desenvolvimento”. Os povos negros “são incapazes de se desenvolver e de receber uma educação. Eles sempre foram tal como os vemos hoje”.

As coisas ficaram ainda mais difíceis para o estudo da história da África após o aparecimento, nessa época e em particular na Alemanha, de uma nova concepção sobre o trabalho do historiador, que passava a ser encarado mais como uma actividade científica fundada sobre a análise rigorosa de fontes originais do que como uma actividade ligada à literatura ou à filosofia.

Tal concepção foi exposta de forma muito precisa pelo professor A. P. Newton, em 1923, numa conferência diante da Royal African Society de Londres, sobre “A África e a pesquisa histórica”. Segundo ele, a África não possuía “nenhuma história antes da chegada dos europeus. A história começa quando o homem se põe a escrever”.

Os historiadores coloniais profissionais estavam, assim como os historiadores profissionais em geral, apegados à concepção de que os povos africanos ao sul do Sahara não possuíam uma história susceptível ou digna de ser estudada. Como vimos, Newton considerava essa história como domínio exclusivo dos arqueólogos, linguistas e antropólogos.

Nega assim, a possibilidade de os africanos terem contribuído para o desenvolvimento da História Universal. O Eurocentrismo defende que somente com as fontes escritas é que se faz a história.

Corrente Afrocentrica 

Surge em reacção à corrente eurocêntrica. Critica radicalmente a colonização, afirmando que influenciou negativamente a evolução histórica africana. É uma corrente que valoriza excessivamente as realizações africanas. Recusa influência que os outros povos exerceram sobre a história de África. Para eles, a história é o que graças ao esforço exclusivo dos africanos, sem concorrência de nenhum factor externo.

O afrocentrismo defende que se deve interpretar e estudar as culturas não europeias, nomeadamente a africana, e os seus povos do ponto de vista de sujeitos ou agentes e não como objectos ou destinatários. Estes não defendem que o mundo seja interpretado sob uma única perspectiva cultural, como foi o caso do eurocentrismo, mais que seja reconhecida a existência de uma cultura e a sua avaliação em termo de pensamento e conhecimento através da sua própria perspectiva, nesse caso, mais concretamente a cultura africana seja analisada, por si, enquanto sujeito e não através de modelos culturais que por vezes não só a entendem como a desprezam e desvalorizam.

Corrente progressista  

É uma corrente que reconhece o valor das fontes escritas, mas recusa aceitar que a história seja feita apenas com base em documentos escritos, negando assim, ao eurocentrismo. Contrariamente ao eurocentrismo e ao afrocentrismo, o progressismo não espelha complexo de superioridade nem de inferioridade. Reivindica

 Parafraseando Ki-zerbo (2010:3) O progressismo expandiu-se a partir de meados do século XIX com historiadores como: Albert Adu Boahen, Joseph Ki-Zerbo, Teólifo Obenga, e Roland Oliver.

Uma investigação histórica séria e não discriminatória tendo como chave a combinação de várias base metodologias e fontes. Esta corrente depende a importância das fontes orais para todo o conhecimento – tudo o que é escrito é antes pensando e falado.

Principais defensores Samuel Johson (Serra Leoa);

  • Carl Christopher (Gana);
  • Joseph Ki-Zerbo (Burkina-Faso).

 

Papel dos Historiadores

Os seus escritores servem de fonte importante para a reconstrução da História de África, com destaque para a África Ocidental, Norte do Sudão e África Oriental. (Sbn Khaldun (1332-1395).

Historiador muçulmano que contribuiu para a historiografia através da sua investigação cruzada em história, economia, demografia e geografia.

O Objecto da História

A história não tem outra alternativa senão seguir a tendência de especialização de qualquer disciplina científica. O conhecimento de toda a realidade é epistemologicamente impossível, ainda que o esforço de conhecimento transversal, humanístico, de todas as partes da história, seja exigível a quem verdadeiramente queira ter uma visão correcta do passado.

A História, portanto, deve segmentar-se, não apenas porque a perspectiva do historiador esteja contaminada com subjectividade e ideologia, mas porque ele deve optar, necessariamente, por um ponto de vista, do mesmo modo que um cientista: se quiser observar o seu objecto, deve optar por usar um telescópio ou um microscópio (ou, de forma menos grosseira, que tipo de lente irá aplicar). Com o ponto de vista determina-se a selecção da parte da realidade histórica que se toma como objecto, e que, sem dúvida, dará tanto a informação sobre o objecto estudado como sobre as motivações de um historiador que o estuda. Essa visão preferencial pode ser consciente ou inconsciente, assumida com maior ou menor cinismo pelo historiador, e é diferente para cada época, para cada nacionalidade, religião, classe social ou âmbito no qual o historiador pretenda situar-se.

Métodos da historiografia africana

Nos últimos anos, a História de África caminhou a passos largos no lançamento de novos métodos na tentativa de abarcar regiões que ainda não foram suficientes investigadas. Assim, registam-se os progressos da História analítica (história de campo que não depende apenas dos arquivos) para a história colonial e pré-colonial (cuja documentação é rara). É sabido ainda que os arquivos coloniais foram criados e mantidos por estrangeiros e, naturalmente, incorporam os preconceitos dos seus autores, os seus sentimentos sobre si próprios, sobre aqueles que governavam e sobre os seus papéis, o que pode resultar em desastre científico se não se socorrer de outras fontes, como a informação oral.

Os historiadores de África fizeram um trabalho pioneiro neste âmbito ao se debruçarem sobre o período pré-colonial e colonial. Este trabalho conheceu duas etapas principais:

·         a primeira que vai desde 1890 a 1914: altura em que os administradores letrados ao serviço da administração colonial começaram a preocupar-se em conservar as tradições orais de relevância histórica;

·         a segunda etapa vai de 1914 até à década de 60: é a época das independências, onde começa a surgir uma vaga de historiadores africanos que se interessam pelo estudo das fontes de História africana, com mor destaque para a tradição oral, a linguística e a arqueologia.  

Fontes

Tipo de fonte

Características

Dificuldades

Oral

É a principal fonte para a reconstituição do passado de África apoiando-se na linguística (que faz o estudo comparativo das línguas) e na antropologia (que faz o estudo da cultura das civilizações).

Não são fiáveis, são fracos em termos cronológico, mas também abunda nesta fonte o esquecimento. Portanto, a morte deste possuidor de conhecimentos é uma biblioteca perdida é uma informação difícil de recuperar.

Escrita

Recorrer aos documentos escritos em Árabe encontrados no Egipto, Núbia e Etiópia.



São raros, pois estes documentos estão mal distribuídos quer em regiões e épocas. A mais parte deles estão escritos em Árabe e aparecem carregados de vários interesses: Politico, económicos, Sociais, religiosos distorcendo o sentido real da história de África não é colocada numa perspectiva científica.

 

 

Arqueológica

Recorre-se as escavações arqueológicas e o seu uso deve-se a escassez da fonte escrita. Usa-se a técnica do carbono 14 para datar as mesmas.

Sofrem mutações devido a erosão que acaba dificultando as escavações e interpretação.



 

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